UNO Agosto 2013

Entre a terra prometida e o risco do empreendedor

prometida

 

Pra esse sol,
para esta escuridão
Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso

Caetano Veloso,
Divino maravilhoso

Quanto mais o empreendedor ibérico planeja investir ou investe no Brasil, mais parece ganhar sentido um verso sem qualquer vínculo com negócios, de Fernando Pessoa: “Amar é a eterna inocência, e a inocência é não pensar”. Ou seria esse escrito de García Lorca: “Amarrado por ti, hecho com tus dos manos”. Talvez, nem um nem outro, sim esse breve cantar de Caetano Veloso: “Eu vou lhe dar a decisão…” ((PESSOA, Fernando, O guardador de rebanhos, in: Obras Completas, Rio de Janeiro, Aguilar, 1974, p. 204; LORCA, García, Bodas de Sangre, in: Obras Completas, Aguilar, 1977, p. 606, v.2; VELOSO, Caetano, Moro na Filosofia, CD Transa, Universal Music, 2012, original: Londres, 1972.))

Por quê?

Há uma convergência entre os três momentos poéticos descritos. Com inocência e o não pensar, se deixando amarrar ou sentindo a força da decisão, é fácil constatar que, não se deve ceder à tentação das imagens feitas ou dos arquétipos. A cada passo, o brasileiro apresenta uma nova surpresa, um novo avanço no modo de sentir e agir, de pensar e dar à liberdade um significado mais amplo. Açúcar, ouro, café, borracha, madeira, algodão, industrias, serviços, globalização: cada momento é palco de um novo sentido da conquista e da confiança. Se no século VXIII, foi o Brasil tesouro da Europa, pela riqueza das minas, hoje é o tesouro dos investidores pela expansão do mercado.

Não falta alegria, como rezam os arquétipos, mas tudo é novo, tudo é promissor, mas nada deixa de ser desafiador, capitalismo de risco. Ou como ensina o refrão de Caetano Veloso: tudo é perigoso, tudo é divino, maravilhoso.

A MOLDURA E O QUADRO

De qualquer ângulo que se olhe, o Brasil é um gigante. Sua população, com cerca de 200 milhões de habitantes (2012), é equivalente à população dos 12 países da América do Sul ((Pelos dados do Ipea (Instituto de Política Econômica Aplicada), em 2035 o Brasil terá 225 milhões de habitantes.)). Equivale dizer que é mais de 18 vezes maior, em números aproximados, que a população de Portugal e mais de quatro vezes a população da Espanha, também em números aproximados. Geograficamente, possui espaço suficiente para abrigar todo o território dos Estados Unidos, excluindo o Alaska, e nos seus 8,5 milhões de quilômetros quadrados caberia mais de 14 vezes os 580 mil quilômetros da Península Ibérica.

Se o critério for as dimensões do mercado, figura entre os cinco grandes do mundo, ao lado dos Estados Unidos, China, Rússia e Índia. Aliás, vale lembrar, o mercado sempre foi o grande trunfo brasileiro. Foi assim até a Abertura dos Portos em 1808, quando se abriu ao mercantilismo inglês em troca de defesa contra as tropas de Napoleão. Foi assim no período do Império, quando Dom Pedro II usou o controle das importações para desenvolver produtos made in Brazil.

Foi o mesmo recurso que industrializou o pais nos anos 40 do século 20 e que neste século construiu integração competitiva da globalização. Neste último, incorporou mais de 30 milhões de pessoas ao consumo. Tornou-se menos injusto, ser excludente passou a ser como se fosse um anátema maldito. Independente do seu alcance, a verdade é uma só: com ou sem facilidades de acesso, o mercado fez do Brasil uma das economias mais atraentes do planeta.

O mercado sempre foi o trunfo do Brasil. Do Império à globalização recorreu a ele para crescer e se tornar atraente aos olhos dos investidores internacionais

Mas os números e as peculiaridades do mercado servem apenas para desenhar a moldura e pintar o retrato do pais que portugueses e espanhóis, em especial, estão no caminho mágico da redescoberta. Nesse caminham não devem apenas seguir a lupa dos estudos de mercado, mas também –e principalmente– a voz do coração. Porque esse é o caminho dos tempos modernos, misturar Lorca, Fernando Pessoa e, por exemplo, Caetano Veloso. Todos falam a língua de um pais que acorda, não perde o modo terno e carinhoso de ser, mas se movimenta para exibir mais e melhores empresas. Assim, o caminhante não tem caminho. Abre caminho ao andar.

A TERCEIRA ONDA

Os português e espanhóis estão voltando. Ou melhor, os portugueses estão voltando e o espanhóis estão chegando. Ao contrário da América do Sul, a colonização entre nós foi portuguesa, não hispânica. A vida dos espanhóis no Brasil foi uma linha reta no decorrer do século 20, sobretudo nos 60 anos iniciais quando os imigrantes foram trabalhar, em sua maioria, nas fazendas de café em São Paulo e também se dedicaram ao comércio. Essa foi a primeira onda.

A segunda onda ganhou contornos mais efetivos na forma do grande capital. Investiu-se maciçamente em bancos e telefonia. Isto foi bem recentemente, a partir de 2005. Inclui as operações de compra do Banco do Estado de São Paulo (Banespa) pelo Santander e da Vivo pela Telefonica. A terceira onda sai da linha reta e vai caminhar nas curvas. O movimento tem suas raízes na crise europeia de 2008. A julgar pelos levantamentos da Câmara Oficial Espanhola de Comércio os investimentos irão desafiar a gravidade até 2015, isto é, nos próximos dois anos: R$ 44 bilhões. É dinheiro grande para investir em imóveis, software, transporte e infraestrutura.

No início, digamos assim, foi uma empreitada heroica. A busca de uma terra estranha, a determinação de vencer, o espírito do desbravador que fez da Coroa Espanhola a senhora do Novo Mundo. Em 12 de outubro de 1492 chegava Colombo. Pensava estar na Ásia, mas estava na América. Venceu o acaso, venceu a coragem. Mais do que o ouro das Américas, como assinala Carlos Fuentes, Colombo levou para a Espanha a visão de “uma nova Idade do Ouro”, “a terra da Utopia” ((FUENTES, Carlos, The burried mirror: reflection on Spain and the New World, New York: Houghton Mifflin, 1992, p. 8.)). Foi exatamente o que vieram buscar os imigrantes do século 20. A seguir, foi tudo mais planejado, menos utópico e mais concreto.

Portugueses e espanhóis chegaram em levas sucessivas. Agora, investem grandes capitais, inspirados na crise europeia de 2008 com visão menos utópicas, mais concreta

Os portugueses, por sua vez, já conheciam a terra. Foram seus descobridores e colonizadores. São os ancestrais, a memória. Também aqui chegaram em ondas, mas em grandes ondas. De saída, o grande período que se estende da colonização ao império. Depois, com as migrações do século XX. Agora, os maciços investimentos como é o caso dos hotéis que respondem por nomes sonoros – Vila Galé, Pestana, Dom Pedro, com foco particular na Copa do Mundo de 2014. O resultado é que Portugal se tornou no sétimo pais que mais investe no Brasil. E nos últimos anos os investimentos triplicaram. Os espanhóis, nessa corrida, estão na frente. Ocupam a segunda posição entre os investidores diretos.

prometida-fullA surpresa, para espanhóis e português, foi emergindo na medida em que o sentido oculto das coisas foi se tornando visível. O brasileiro, com um olho e o sorriso para a cordialidade, nunca desgrudou o outro olho da determinação de fazer e exigir. Sobretudo, exigir que foi se tornando a característica essencial da nascente, mas já vigorosa democracia de massas.

DO SILÊNCIO AO GRITO

Embora o investidor ibérico conheça o Brasil, as novidades não são visíveis à olho nu. Teoricamente, o pais exibe múltiplas facetas, que se estendem da estrutura fabril diversificada e integrada, à agricultura vasta, sobretudo de grãos, somando-se aos serviços múltiplos e sofisticados. É um país que evoluiu da indústria tradicional para a indústria de ponta, que disputa acirradamente mercados externos, das Américas a Europa, da China a Ásia, e que se transforma em mercado de tal forma atraente, que é impossível abrir mão caso se alimente planos de globalização.

Sabe-se, igualmente, a gente brasileira é seduzida pelo novo, pelo moderno, pelo desafio. Trata-se de um país que impressiona pela ideia de liberdade e a rejeição às práticas autoritárias. Há um outro extremo que vem vicejando com a democracia. É a capacidade de romper o silêncio, gritar, de recorrer à lei, de exigir que as empresas de comunique, e bem, que sejam profissionais naquilo que oferecem.

Esse é o sentido da transparência. Isto é mais complexo do que se imagina porque exige prática. Na verdade, exige-se investimentos em tudo que signifique atendimento ao público, assistência técnica, diálogo. O Brasil caminha para ser um grande Estados Unidos. Se o cidadão se sente insatisfeito, procura a empresa, se não for ouvido, bate às portas da justiça e esta vem caminhando mais rápido. Se aperfeiçoando.

Para o empreendedor ibérico, nessa terceira onda, é realmente um imenso compromisso. Nenhum dos aspectos centrais da vida do brasileiro é deixado de lado, independente de classe social. Para além das idealizações, exigências fazem parte da rotina do atendimento, da qualidade dos produtos, da eficácia e pontualidade dos serviços. O País sabe ser dinâmico e flexível, livre e solidário, mas reclama, é independente. Tem uma mídia forte e abrangente como porta-voz. É preciso, por esses lados, trabalhar a comunicação e a gestão como um carpinteiro. É imprescindível ser empreendedor e comunicador e saber fazer florir as adesões do mercado. Eis o desafio: descobrir o mistério nas coisas aparentes, sentir o quanto o pais mudou com a liberdade. Sim, com a liberdade as coisas ganharam dimensão real, ganham novos sentidos a cada dia.

Paulo Nassar
Diretor Presidente da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial
É Diretor Presidente da Aberje e Professor Doutor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Pesquisa a Imagem Recíproca do Brasil no mundo em seu pós-doutorado pela IULM (Milão), onde é professor visitante. Coordena o Grupo de Estudos de Novas Narrativas da ECA-USP. Criou, em 2010, a série internacional Brazilian Corporate Communications Day, que já percorreu oito metrópoles globais e também a BR.PR magazine, a primeira publicação global da comunicação empresarial brasileira. É autor de cinco livros sobre comunicação, organizou diversas obras e publicou mais de duzentos ensaios, artigos e capítulos de livros.

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